Consumo, valor e cadeia de produção

Dani riscando um molde
Este texto é dedicado à oficina das minhas tias, que me permitiram tornar ato aquilo que existia em potência.

Já contei para vocês por que existe a Madeleines. Hoje vou contar como existe a Madeleines. E também farei uns apontamentos sobre consumo e a cadeia de produção desse modelo econômico que estamos submetidas.
Muitas pessoas imigram para o Brasil, enxergam aqui uma espécie de sonho latino-americano, e se submetem às mais descabidas (para não dizer terríveis) condições de trabalho. Toda semana surgem relatos de abusos, assim como de desmantelamento de cadeias produtivas desumanas que ainda sustentam em diversos níveis o consumo de grandes centros.
Parte do meu sonho de produzir roupas para pessoas que não são plenamente contempladas pela moda (como eu, para mim) perpassa a problemática de quem seriam as mãos e máquinas que uniriam tecidos transformando-os em vestidos. E também, assim como a pessoa física Danieli, a pessoa jurídica Madeleines precisa ter um posicionamento claro sobre sua própria cadeia produtiva.
A Madeleines sou eu, mas não sou apenas eu. Eu sou a parte que pesquisa referências, desenha modelos, faz moldes, alterações, costura pilotos (peças de teste) e parte das encomendas. Mas uma parte considerável é feita pela oficina das minhas tias. A tia Lu, que cursou moda, altera moldes, corta, faz acabamentos. A tia Si, que tem décadas e décadas de experiência no ramo, faz a costura pesada com rapidez. Quando não estão trabalhando comigo, elas fazem figurinos para teatro e balé, uniformes esportivos, consertos e reformas em roupas.

fios e linhas empilhados

Há uma nova onda no consumo que os perpétuos críticos do capitalismo dizem ser uma nova roupagem para que o sistema se mantenha e perpetue. Posso até concordar com alguns deles (ou até totalmente, veja você). Ainda assim há espaço para alguém que queira costurar para si e para suas amigas porque não se vê ou não as vê nas vitrines dos shoppings. Ainda assim não há desculpa para que se sustente qualquer cadeia produtiva que seja baseada no trabalho indigno análogo à escravidão. Nossa ideia de nova consciência e juventude não pode ser às custas dos sonhos, da consciência e juventude de outros.
Quando você compra um vestido meu está me ajudando a manter isso tudo aqui. Além de mim, também mantém viva a oficina das minhas tias. Mulheres que, me permito dizer aqui, ousam competir com grande lojas exatamente por ter aquilo que elas não tem: engajamento real e uma mãozinha na consciência.
Se quiser saber mais sobre condições de trabalho, leia aqui.

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