Bolsos sim, por que não?

Somos herdeiras das nômades e coletoras que andaram por aí sobre a terra. Herdamos delas espírito aventureiro (mesmo que só em nosso imaginário) e o instinto de carregar coisas de um canto para o outro. Uma das maiores invenções da humanidade, na minha humilde opinião, foi o cesto, que nos permitiu carregar ainda mais coisas. Como não somos mais aquelas criaturas primitivas, vamos evoluindo e refazendo nossa relação com os outros e com o mundo, não podemos nos pautar (ou permitir que nos pautem) e deixar a coisa permanecer como está na base do argumento de que “sempre foi assim”, pois outra coisa que herdamos (ou se não herdamos agora assumimos que sim, ué) é a noção que temos um papel importante, responsabilidade mesmo, na transformação da sociedade.

Algo que qualquer mulher nota facilmente é a necessidade da existência de um assessório, algo que se carregue e cujo objetivo seja carregar coisas. Bolsas. Isso mesmo. Apesar desse texto também não ser sobre bolsas, a reflexão que proponho aqui parte de um detalhe que noto nelas. Nada contra bolsas, tenho até amigas que são. Algumas até são bonitas, podem servir para a famigerada “composição do look” porém não são das coisas mais práticas. Algo que considero o ápice da falta de compreensão do potencial no vestuário é (e aqui sim começo a justificar o título) é a existência de pequenos bolsos… nas bolsas. Para o telefone, chaves, bilhete do ônibus e tantas outras coisas. Acho o máximo que pensaram em algo mais prático, para tornar certos objetos de uso frequente ou de alta rotatividade disponíveis neste assessório, porém seria tão legal que houvesse algo que pudesse competir de forma sublimar a existência do próprio assessório.

Imagina que loucura se a gente pegasse esses bolsos das bolsas e colocasse… nas roupas?

Cartum mostrando uma mocinha meio blah, de vestido, e depois a mesma mocinha num vestido muito parecido, mas toda glamourosa, com as mãos nos bolsos

“Eu num vestido/ Eu num vestido com bolsos”, da Loryn Brantz

Moda, como tudo, é repleta de um discurso. O paralelo que evoco aqui é a distinção entre a roupa dita masculina e feminina, em que, mesmo tendo diversos exemplos que se impõe e questionam as fronteiras destas regiões no imaginário coletivo, a primeira sempre pôde abdicar de “valorizar” suas formas para ser minimamente útil enquanto a última não. Por que é que eu tenho que escolher entre forma ou função? Por que eu não posso ter as duas coisas?

A indústria da moda quer que a gente aceite que estão nos fazendo um favor só de lhe cobrir o corpo, e que você se dê por feliz se o seu corpo couber nas roupas que eles fazem. Imagine exigir coisas como BOLSOS. Comecei sim a costurar por tudo aquilo que escrevi no post sobre a Madeleines e aqui apenas adiciono que, também, não só precisava como também queria a versatilidade que bolsos proporcionam.

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Um fenômeno que mascara uma intenção maligna (e quem me conhece sabe que não é exagero quando falo isso) é a existência de bolsos falsos. Muitas vezes ele existe no desenho geral da peça, eventualmente até há o apêndice de tecido, porém fora costurado para impedir seu acesso. Estruturas que simulam bolsos estéreis são, como disse, malignas. Mal intencionadas. Ou melhor, a intenção destes é garantir a manutenção de que a roupa siga representando a vontade de quem a desenhou sem preocupar-se em ser minimamente útil, naquela lógica em que nossos corpos precisam servir na roupa. Não como uma simulação, que ainda submete nossa vontade, que propositalmente nos deforma. Um vestido Madeleines é a mostra de que dá bem para ser bonito e ter bolsos. Por que não?

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Sobre bolsos falsos (e ódio): Precisamos falar sobre bolsos falsos em roupas femininas

Sobre o sexismo escondido na falta de bolsos: A História Complicada E Sexista Dos Bolsos Na Moda Feminina

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